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sábado, 12 de janeiro de 2013

Entrevisa mediúnica de Rubem Braga


ENTREVISTA

"Bom mesmo é vadiar"

 



Severino Francisco

Para quem dizia que fazia o elogio da vadiação, Rubem Braga trabalhou muito. Ao longo de mais de 60 anos de ofício, produziu cerca de 15 mil crônicas para jornal. Em  vida, ele era extremamente arredio a jornalistas e entrevistas. A partir dos textos desse rico acervo estabelecemos essa conversa com esse caboclo desconcertantemente bravo e, ao mesmo tempo, delicado. Fala, Braga!

O senhor fica satisfeito com as comemorações do seu centenário na condição de sabiá da crônica?

Preferia ser um urubu, ave mais pesada e mais triste.

Por favor, dê uma autodefinição menos cavernosa?

Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas ainda em bom estado de conservação.

Por que o senhor é tão rude e, às vezes, grosseiro?

Bem o sabeis, por certo, a única nobreza do plebeu está em não esconder sua condição e esta nobreza tenho eu. A minha vida sempre se orientou pelo fato de eu não querer ser um conde. Preferia ser um passarinho.

 E por quê essa preferência pela ave?

O conde não gorjeia nem voa. É gentil ser um passarinho.

O senhor é um colega de profissão. Essa aversão aos jornalistas é uma pose?

Não sou cangaceiro por motivos geográficos e também por causa do meu reumatismo.

Ser cangaceiro é uma vocação ou destino?

Todos os homens pobres do Brasil são lampeõzinhos recalcados.

Guimarães Rosa dizia que os escritores deveriam fazer pirâmides e não biscoitos. O senhor estabelece uma distinção entre o escritor e o cronista?

Nossos ofícios são bem diversos. Há homens que são escritores e fazem livros que são verdadeiras casas, e ficam. Mas o cronista de jornal é como o cigano que toda noite arma a sua tenda e pela manhã a desmancha, e vai.

O que é a crônica para o senhor?

Pensar em voz alta.

Manuel Bandeira escreveu que o senhor escreve bem sobre qualquer assunto e ainda melhor quando não tem assunto. É verdade?

Às vezes a gente parece que finge que trabalha; o leitor lê a crônica e, no fim, chega à conclusão de que não temos assunto. Erro dele. Quando não tenho nenhum frete a fazer, sempre carrego alguma coisa, que é o peso de minha alma; e olhem que não é pouco.

Qual o segredo da simplicidade do seu estilo?

O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que esse é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos.

Como é que foi a sua chegada no céu depois da morte?

Quando cheguei por lá, percebi que São Pedro tinha ordens para não me deixar entrar, mas ficou indeciso, quando eu disse em voz baixa: “Eu sou de Cachoeiro”.

Por que mistifica tanto a pequenina Cachoeiro do Itapemirim, onde nasceu?

Ela é a capital secreta do mundo. Parece que toda a minha vida fora dali foi apenas uma excursão confusa e longa; moro ali. Na verdade, onde posso morar senão em minha casa?

Que tipo de esnobismo irrita ao senhor nos dias de hoje?

Não há nada mais hipócrita e constrangedor para um homem de bem do que chamar queijo de fromage ou cheese quando está vendo que é queijo mesmo.

Nos últimos tempos, a Terra vem sendo revolvida por maremotos. Como está percebendo esses fenômenos?

Lamentemos os mortos e a tragédia que representa para as crianças e as mulheres. Mas louvemos o maremoto e o terremoto pelo que eles têm de fundamentalmente pânico, pela sua cega, dramática, purificadora intervenção na vida cotidiana, pela sua lição de humanidade e fatalidade. Sei que muitos poderosos de nossa terra ficariam mais simpáticos e propensos à filosofia se nosso bom Atlântico fizesse uma excursão por aqui.

Como pode ver algo positivo nos terremotos e maremotos?

O terremoto ameaça a terra com seus bens, e a própria vida; sua ocorrência só pode tornar as pessoas mais amantes da vida e mais conscientes de sua espantosa fragilidade. E isso faz bem.

E o que tem observado no comportamento de nossos homens públicos?

Homens públicos sem sentimento público, homens ricos que são, no fundo, pobres diabos — que não descobriram que a grande vantagem real de se ter dinheiro é não ter que pensar, a todo momento, em dinheiro… Nossos homens de governo têm uma pasmosa desambição de governar…

Defina, por favor, a política em uma frase que caiba no Twitter?

Política é a arte de namorar homem.

Então, vamos falar de assuntos mais amenos. Que imagem faz da mulher, tão cantada em suas crônicas?

Flor. É inacreditável como a mulher se parece com a flor. É uma aparição: algo que traz do fundo da terra uma inesperada palavra de condor. Parece dizer: eis-me aqui. E não é apenas a brisa que a estremece: é a vida.

O que sente diante de uma mulher?

Uma espécie de gratidão. Não tínhamos pensado nisso: mas agora nos damos conta de que sua presença é um favor da vida; e quando a encontramos numa esquina, achamos que é uma gentileza da municipalidade para com a nossa mesquinha, às vezes, surdamente aflita pessoa.

Que transformações detecta nas mulheres com a chegada do verão?

Estremecem quando de súbito defrontam um gato; são assaltadas por uma remota vontade de miar; e, certamente, quando a tarde cai, ronronam para si mesmas. Entregam-se a redes. Sendo embaladas, elas se comprazem neste jogo passivo e às vezes se deixam raptar, por deleite ou por preguiça.

As pessoas se separam muito nos dias de hoje. O senhor ainda acredita no amor?

Ele é como a Lua, resiste a todos os sonetos e abençoa todos os pântanos.

O que o senhor pensa dos amores que passaram?

Que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

E, por falar em pântanos, o senhor fez psicanálise alguma vez?

Não, porque os psicanalistas iriam escarafunchar a minha alma e isso não vale a pena. Respeitemos a morna paz desse brejo noturno onde fermentam coisas estranhas e se movem monstros informes e insensatos.

Com essa aparência tão grave, o senhor parece não levar a vida muito a sério?

É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta.

O que é essencial na vida?

A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio.

O que é o bom da vida?

Bom mesmo é vadiar.

O que ocorreu em algum momento feliz de sua vida?

Nasceu-me uma flora na lapela e uma namorada no braço.

Que conselhos  daria aos escritores jovens?

Que deixem os escritores velhos em paz.

Por favor, uma mensagem mais bem-humorada  para os leitores do Correio.

Que tudo o que disse por tédio e afetação pudesse ser esquecido e minha lição obscura fosse de uma lição de insaciável liberdade e gosto de viver.

Mas e os problemas do mundo que nos cercam de todos os lados?

Sei que o mundo está cheio de horríveis problemas — e eu mesmo, pensando bem, tenho alguns bem chatos. Mas não estou pensando neles: estou vivendo, nesta fresca manhã, um momento de bem-estar, de felicidade. Ora, considerando que a felicidade é uma suave falta de assunto, eu me despeço de todos e vou almoçar. Não quero contar prosa, mas tenho arroz, feijão, carne, alface, laranja, pão, tudo o que um ser humano necessita para viver bem. Um velho amigo vem honrar a minha mesa; falaremos com simpatia das mulheres bonitas desta formosa capital. Conversa de brasileiros! Bom dia, passem bem todos com suas mulheres, com seus amigos, com suas amantes também.

2 comentários:

Anônimo disse...

kkkkkkkkkk Muito bom, vou replicar

Amanda Tavares

Anônimo disse...

Sobre a vida – e principalmente as circunstâncias que cercaram a a morte de Rubem Braga – vale a pena ler este excelente texto do mauro santayana, do Jornal do Brasil:
http://www.maurosantayana.com/2013/01/rubem-e-o-poder.html